O Bote de Rapé

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 O Bote de Rapé


PERSONAGENS:


Tomé, Um relógio na parede, Elisa - sua mulher, O nariz de Tomé, Um caixeiro o bote de rapé  CENA I:


  TOMÉ, ELISA (entra vestida)


TOMÉ — Vou mandar à cidade o Chico ou o José.


  ELISA — Para... ?


 


  TOMÉ — Para comprar um pacote de rapé.


  


  ELISA — Vou eu.


  TOMÉ — Você?


  ELISA — Sim. Comprar um sapato novo, comprar dois vestidos, um deles com pinças


  um chapéu com uma rosa, Um par de luvas, uma camisóla,  


  pegar o vestido azul que  encomendei, e um véu... Que mais? Mais nada.


  TOMÉ — (rindo)


  Dize logo que vai de uma só vez buscar


  Tudo quanto existe na 25 de março.


  Pois bem meu anjo, desde que  traga me o rapé.


  ELISA — Nada mais? Um CD? Um pen draive? Um contonete?


  Não quer que eu leve um recado ao Dr. Isaque?


  Charuto? Algum livro? Aproveita, Tomé!


 


  TOMÉ — Nada mais; só preciso do pacote de rapé...


  


  ELISA — Um pacote de rapé! Você bem sabe que a tua Elisa...


 


  TOMÉ — Estou doente e não posso ir à rua.


  Essa asma infernal que me persegue... Está vendo?


  Melhor seria matá-la e morrer de uma vez,


  Do que viver assim com tanta cataplasma.


  E ainda há algo pior do que isso! ainda pior que a asma:   


  Não tenho rapé.


 


  ELISA (rindo) — Oh! se pudesse me  


  livrar disto para sempre, e acabar, acabar


  Esse vício tão feio! Antes fumasse.


  Há vícios idiotas e vícios elegantes.


  O charuto é bem visto, aromatiza, influi


  Na digestão, e até dizem que restitui


  A paz ao coração e dá risonho aspecto.


  TOMÉ — O vício do rapé não é imprudente.


  Indica desde logo um homem de razão;


  É livre no mercado, e se usa no salão


  já vi usarem na igreja.


  Uma boa pitada, as idéias areja;


  Dissipa todo meu mau humor


  Quando estou a ponto de pôr  a casa abaixo!


  Vou ao meu santo rapé; abro a bolsa, e tiro


  Uma grossa pitada e rapidinho aspiro;


  Com o lenço sacudo algum resto de pó


  E ganho só com isso a mansidão de Jô.


  ELISA — Não duvido.


  TOMÉ — ainda mais: até o amor aumenta


  Com a porção de pó que recebe uma venta.


  ELISA — Talvez tenhas razão; depois de um pitada te encontro com mais amor,


  e cheio de ternura...


  TOMÉ — Minha flor,


  Se queres ver-me terno e amoroso contigo,


  Se queres reviver aquele amor antigo.


  Vai depressa.


  ELISA — Onde, onde?


  TOMÉ — Na casa do norte;


  Dize-lhe que me mande a marca de sempre.


  


  ELISA — Catuaba, não?


  TOMÉ — Catuaba. Que é isso?


  ELISA — Para aumentar o amor.


  TOMÉ — Ah, o amor? Ah tá, bem, vá.


  ELISA — Até logo, Tomé.


  TOMÉ — Não se esqueças.


  


  ELISA — Já sei: um pacote de rapé.


  (sai)


        CENA II


  TOMÉ, depois o seu NARIZ


  TOMÉ — Que zelo comigo! Como se preocupa! Sempre disponível! Vai onde eu peço sem criar caso!


  Quase não tem tempo para dormir.


  Tá bom não é pelos afazeres,


  é por conta do forró na casa do tio


  era a fasta do irmão dele


  Vai o Guedes, o Paca, o Rubirão, o Cruz,


  A viúva do Silva, a família do Mata,


  Um banqueiro, um vereador, creio que um deputado.


  Dizem que o orçamento da festa ficou em R$5.000,00.


  Não dúvido 2 bandas de forró


  uma ceia, os bolos, os pastéis,


  Refrigerante, chá, café... vai ser caro mesmo.


  E eu desde já me preparo


  Vivendo só de água e rapé.


   


 


  O NARIZ — Olá, Sou eu; peço a você


  mate me a vontade, inserindo um pouco de tabaco.


  Há três horas jejuo, e já me sinto fraco,


  Nervoso, impertinente, estúpido, — nariz, Em suma.


  TOMÉ — Um infeliz consola outro infeliz;


  Também eu tenho a cuca um pouco transtornada,


  E gemo, igual a você, à espera da pitada.


  O NARIZ — O nariz sem rapé é alma sem amor.


  TOMÉ — Olha podes cheirar esta pequena flor.


  O NARIZ — Flores; nunca! jamais!  


  Há alguém que goste de cheirar esse produto imundo?


  Um nariz que se preza odeia esses aromas.


  Gosto de outros prazeres das cavernas nasais.


  Quem um dia aspirou aquele pó divino,


  Deixas as rosas e o mais às ventas do menino.


  TOMÉ — (consigo)


  Acho neste nariz bastante elevação,


  Dignidade, critério, empenho e reflexão.


  Respeita-se; não desce a farejar essências,


  Desodorantes é observador.


  


  O NARIZ — Vamos, uma pitada!


  


  TOMÉ - Um instante, infeliz!


  


  (à parte)


  Vou dormir para ver se aquieto o nariz.


  (Dorme algum tempo e acorda)


  Nossa! Que sonho; ah! Que horas são!


  O RELÓGIO (batendo) — Uma, duas.


  TOMÉ — Duas! E a minha Elisa a andar por essas ruas.


  Coitada! E este calor que esta de matar


  me lembra o pobre Ceará.


  Esqueceu de me dizer se ia de taxi.


  Que diacho! Também saiu com tanta pressa!


  Pareceu-me, não sei; é ela, é ela, sim...


  Este passo apressado... É você, Elisa?


   CENA III


   TOMÉ, ELISA, UM Menino (com uma caixa)


   ELISA — Enfim!


   Entre cá; ponha aqui toda essa mercadoria.


   Pode ir.


  (Sai o menino)


 ELISA  -  Como está ficou bem?


  TOMÉ — Como sempre; a asma danada


  Sossegou depois que dormi.


  


  ELISA — Vamos agora ver tudo que comprei.


                                       (Fecha a porta).


  TOMÉ — Mas primeiro descansa.  


                                     (Vão até a mesa).


  Tomé - Vi que voltou disposta.


   ELISA — E torrada.


   TOMÉ — É hoje o sol parece estar cruel.


    Vejamos o que vem aqui neste pacote.


    


    ELISA — É o chapéu. Achas bom?


                                     (Ele abre e olha a contragosto)


    TOMÉ — Excelente.


    Coloca.


                                           


     ELISA — Deve cair um pouco para frente. Vai ficar bom?


     TOMÉ — Nunca vi um chapéu tão xique, é para festa.


         


                                      (Ela tira o chapéu e observa a flor )


     


       ELISA — Acho muito engraçada esta florzinha azul.                        


       Vê agora a camisola, é de linho


       superior. fiz sob encomenda,


       é a melhor que se pode fazer.


       Na perfumaria comprei creme, condicionador e xampu.


       TOMÉ (impaciente)


        ELISA — Na praça comprei uma flor de plástico, linda...


        Cinco rosas da China.


        Uma, três, cinco. São bonitas?


       TOMÉ — Só coisa boa, alta qualidade.


       ELISA — Comprei luvas para festa, creme facial, papel crepon, gel cola;


       Antena para TV


       TOMÉ  - Comprou o conversor para TV Digital?


        


        ELISA - Não, precisa?


        Ah, tá depois eu compro.


       Olhe este pano; que lindo! que tecido!


       Não sei se dá para fazer a saia de um  vestido.


       TOMÉ — Dá.


       ELISA — Comprei um vestido pronto, e peguei o que estava encomentado, o sapato,  


       Comprei mais piranhas para cabelo ...  e mais este chapéu.


      TOMÉ — Já me mostrou o chapéu.


     


      ELISA — Fui também ao Godinho,


      Ver as meias de seda e um vestido de linho.


      Um não, dois, foram dois.


      TOMÉ — Mais dois vestidos?


      ELISA — Dois...


      Comprei lá este leque e estes grampos.  


      Para não demorar, fui na mesma hora,


      A provar o vestido na casa da Aurora.


      Ah! Se pudesse ver como me fica bem!


      No corpo cai feito uma luva. Imagina que tem...


     TOMÉ — Imagino, imagino. Olha, tu pões-me tonto


     Só com a descrição; prefiro vê-lo pronto.


     Esbelta, como você é, vou achar bem melhor, no teu corpo.


     ELISA — Verás, verás que é um primor.


     Oh! a Aurora! aquilo é uma grande artista!


     TOMÉ — Não passou no dentista?


     ELISA — Passei; vi lá a Amália, a Clotilde, o Rangel,


     A Maria, que vai casar com o Doutor Albernaz...


     TOMÉ — Albernaz?


    ELISA — Aquele que trabalha


    Com o Gomes, que a mulher tinha um vestido de palha...


    TOMÉ — De palha?


    


    ELISA — Cor de palha, com uma cobertura de pequenas teias,


    Luvas cor de pinhão, e a cauda atada a um nó de cordão;


    o chapéu tinha uma flor cinzenta,


    E tudo não custou mais de cento e cinqüenta,


    Conversamos sobre o forró; a Amália diz que o pai


    Brigou com o Dr. Coutinho e lá não vai mais.


    A Clotilde disse ter usado todo o perfume francês que custou mais de 800 reais.


    O NARIZ (baixo a Tomé)


    Senhor, uma pitada!


   TOMÉ (com intenção, olhando para a caixa)


   Mas ainda tens aí uns pacotes...


   ELISA — Sabão;


   Estes dois são de alface e estes de alcatrão.


   Agora vou mostrar-te um lindo chapelinho


   De sol; era o melhor da casa do Godinho.


 


   TOMÉ (depois de examinar)


   Bem.  


   ELISA — Senti, já no ônibus, um grande incômodo.


   TOMÉ (aterrado)


   Que foi?


   ELISA — Tinha esquecido as botas no Queirós.


   Desci; fui logo as pressa e trouxe estes dois pares;


   São iguais aos que usa a Chica Valadares.


  TOMÉ (recapitulando)


  Flores, uma camisola, botinas, renda e véu.


  Luvas e cremes, antena para tv, piranhas, chapéu,


  Dois vestidos de linho, pano para saia,


  Chapelinho de sol, meias de seda...


  (Levando os dedos ao nariz)


  Vamos agora ver a compra do Tomé.


 ELISA (com um grito)


 Ai Jesus! esqueci-me do  teu pacote de rapé!



Autor: Machado de Assis


Adaptação by Gilvan

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